sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sob a Chuva

acho que eu sei porque as pessoas correm da chuva,
elas têm medo de perderem a tinta,
e quando olhassem no espelho o que veriam?


sonhei que eu caminhava sob uma chuva fina...
e estrada era todade chão, e havia um cheiro fresco de mato molhado,
não me lembro se era cedo ou tarde, mas sei que o sol havia me dado licensa e que se embora fosse claro não havia nenhuma promessa exagerada de euforia ou de um dia de festa, assim a luz se escondia calada atrás das cortinas cinza-azuladas do céu no horionte, e eu caminhava, sem pressa, sem roupas, sem frio, sem calor,e não olhava para trás, não com medo de virar pedras, mas que simplesmente não tinha vontade.
Às minhas costas ficavam em ruínas e caos, toda uma cidade, pedras e luzes, gritos e cores, correria, passos em compassos, rebanhos de loucos, indústrias de verdades que segam e corrompem.
e o meu rastro ia ficando cada vez mais ralo, e quanto mais eu andava, mais se diluia no chão entre o barro e água, toda tinta pela quais me conheciam, e eu se porventura me olhasse, viria no espelho um rosto que se move, mudando as linhas, os contornos e o coração.
e a uma certa altura tão diluida era a imagem que me tinham antes, tão forte fora a minha fuga, que eu já não poderia mais voltar, que já não poderiam mais me achar...
respirava mais aliviado, um ar que agora tinha gosto e umidade, até os ombros se acalmavam sem que eu percebesse, a distancia que eu estava de todos disligara o motor dos nervos, restava agora, que a última luz da cidade ia já sumindo, me desfazer das bagagem, me livrar de tudo o que era, no deserto tão meu, lixo desnecessário, e inútil, porque estava agora num caminho onde não haviam espelhos, então não teria que lutar contra imagens distorcidas, também poderia jogar fora todas as tintas, pois não faria mais passeios publicos, talvez jogasse fora quase todos os verbos, pois precisaria de poucos para as ações que me satisfizessem, faria questão de esquecer as construções imperativas, foguei fora muitos livros e como minha mente ficou leve de toda masturbação intelectual, joguei fora um monte de calculos, alguns estavam até podres, por fim me vi em dificuldade, como jogar fora os traumas e as dívidas?, eram grandes e de formatos peculiares que não passavam pelas portas e janelas de minha mente...
continuei andando sob a chuva, tinha um longo caminho a fazer, logo esqueceria que existira cidade, minha mente seria um imenso salão limpo e vazio com grandes vidraças transparentes por onde o sol entraria educado e com respeito,
iluminando o artista que sou de mim mesmo, pintarei novas telas, e modelarei novos movimentos para preencher o lugar onde moro, onde decanso, onde me encontro...
a minha mente...
sonhei que eu caminava sob uma chuva fina!

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