quarta-feira, 2 de setembro de 2009

UMA NOITE EM SETEMBRO


quantas vezes andei em circulos,
quantas vezes desesperado constatei que estava novamente no mesmo lugar,
olhei o meu corpo marcado, minhas vestes rasgadas, e minhas mãos fortalecidas pelos dias.
e fiquei triste, ajoelho com minha face encurvada para o abismo,
quase louco constato que não há um outro caminho, não há como contornar essa parte escura e fria da minha alma,
se ainda eu tivesse asas,
se ainda eu fosse criança...
precisei decidir, seguir ou ficar ali..., parado, vencido....
ou forjar uma normalidade (nunca!), ou correr em busca de um entorpecer profundo e salvador, me contentar em ser devorado lenta e continuamente pelas sábias garras do tempo, deixando que a vida me leve, eu, como apenas mais um, esboço terrível de homem, mais um rascunho mal feito.
na indecisão andei tanto por ai, virei por todos os lados, provei de tantas sabedorias inúteis, procurei por espelhos falços insanamente tentando enganar a visão, amei a Deus e o matei por sete vezes, chorei sobre seu túmulo e adotei uma criança, ignorei o riso e o choro que vinha da noite escura. e continuei louco, achando que daria a volta em mim mesmo.
mas aqui estou, nessa estranha primavera, meus olhos fitam o infinito inesperado do meu ser, o abismo é louco e sereno nessa época do ano, sinto um certo medo, mas é como se encontrasse um irmão mais velho que não conheci...
não há outra saída, vim longe demais para querer voltar, sem perceber apostei todas as fichas... em mim mesmo.
é tão tênue a linha que separa um gênio de um miserável fracassado... de que lado estarei daqui a algum tempo?
não sei...
mas peço licensa a vocês, todos os que eu amo inevitavelmente, e também aos que têem a honra de serem odiados por mim,
peço licensa porque vou mergulhar agora, e pode ser que eu não volte, ou pode ser que eu acorde um monstro, ou pode ser que com asas de fogo eu renasça como um passaro para finalmente seguir meu caminho, tendo encontrado em meu abismo a cura e a vitória sobre meus demônios.

A CRIANÇA QUE RECITA VERSOS


enroscado em idéias complexas,
sob as ideologias pesadas,
depois da taça quebrada da justiça,
embaixo do pó dos dias,
lembranças, anseios, poesia...
uma criança recita um verso, uma oração.
se eu pudesse no colo a levaria,
a campos verdes, à águas frescas
conforme disse a profecia.
desconfiando da maquiagem frágil dos homens,
tapado os ouvidos para emudecer os canhões da guerra,
uma criança recita versos,
sonhou com uma manhã de domingo,
uma familia feito comercial de margarina...
e seus olhos se encheram de lágrimas.
se eu pudesse espantar o medo de seus olhos...
mas meu coração apertado permanece.
e a criança recita seus versos que ninguem ouve,
nem o dragão que no céu descança.
mas o que fazer?
como encontrar o caminho de sua casa?
perdeu seus pais quando tudo era ruido,
destroços, pedaços de homens partidos.
e o mundo seguro foi só um sonho da noite passada.
corre os olhos de medo pelos mares e montanhas,
recita seus versos, faz suas contas
mas quanto falta para que falte tempo pra que?
um soluço nos escombros,
respirar fundo e se der um passo... mais um passo...
pisa sobre os destroços dos homens.
a criança que recita versos.
se eu encontrar um brinquedo,
se eu revirar as esquinas,
juntar as cores dos semaforos e outdores,
se eu juntar as luzes da noite,
se eu fizer, se eu encontrar um brinquedo eu tecerei um sorriso,
nos seus pequenos lábios trêmulos de medo,
mas segue o concreto e a indiferença,
o teatro das relações ensaiadas,
a produção desenfreada, a correria para onde?
e a criança não se esconde,
se lembrou de uma canção,
lembrou dos lábios nos lábios,
da carne, lembrou do cheiro,
lençois e cinzas,
era do amor que ela lembrava,
sorriu amargo, cerrou os olhos,
tinha que ser forte,
ser forte pra que?
recitar versos, recitar versos,
versos que ninguém ouve,
mas que desentope o coração,
sopra agora o vento da tarde,
que anuncia a morte do sol,
satisfeita por vencer mais um dia,
a criança adormecerá sem amor sem lençol,
sua boca parará numa frase imcompleta do verso que fez,
sonhará com amor, com descanço,
acordará para lutar contra esse tempo mais uma vez...
a criança que recita versos.